Eurico deixa inimigos, legado vitorioso e problemas para o Vasco

Eurico Miranda atendia o telefone com um “alô!” ou um simples “quem é?”, era o terror para muitos jornalistas que cobriam o Vasco. Primeiro porque era raro tirar informações dele. Mas, havia alguns truques que aprendi com Wagner Menezes durante o período em que ter trabalhei na Rádio Tupi. Ligar entre 7h e 9h era essencial para conquistar o dirigente.

Eurico era ouvinte assíduo e conhecia programação da rádio de cor e salteado. Ele acordava cedo para ler as manchetes dos jornais e pedia para entrar no ar para rebatê-las. Dependendo do assunto, ele sempre passava uma informação para retaliar aquele veículo que se colocava contra o Vasco.

As conversas costumavam reservar boas frases. Polêmico e intenso, o “dono do Vasco”, adorava falar sobre a rivalidade com o Flamengo, a admiração por ídolos como Romário e do orgulho que todos deveriam ter ao vestir a camisa do clube.

Morto nesta terça-feira em decorrência de um câncer no cérebro contra o qual lutou nos últimos meses, Eurico Miranda deixa o senso comum de ter sido ousado, contestador e inovador, de ter feito muito pelo Vasco, e de ter pecado pelo excesso. O excesso, no caso, um mandato a mais, contestado, de 2014 a 2018.

O dirigente não era carismático e nunca se importou em fazer desafetos, tendência que aumentou com à idade. Afinal de contas, Eurico sempre se achou um Semideus. Por isso, ele passava a impressão de ser imbatível e mais poderoso do que, de fato, era.

O último deles foi o principal candidato de oposição no Vasco. Júlio Brant, derrotado nas últimas eleições, foi vítima de um golpe político após Eurico se aliar a Alexandre Campello, atual presidente do clube. Antes de Júlio Brant, Eurico entrou em rota de colisão com Ricardo Teixeira, Mário Celso Petraglia, Andrés Sanchez, Anthony Garotinho, Márcio Braga, Roberto Dinamite, …

Eurico era centralizador

Eurico era homem de resolver rapidamente as coisas e tentar sempre ter as rédeas da situação. Centralizador, restringia as principais decisões do Vasco a pouquíssimas pessoas sobretudo no último ano que presidiu o Vasco. Nesse ínterim, cercou-se de pessoas que sempre estiveram ao seu lado: Álvaro Miranda (filho), Eurico Brandão (filho), Isaías Tinoco, Nílson Gonçalves, Paulo Reis, Paulo Rubens Máximo, Ricardo Vasconcellos, Roberto Garófalo, entre outros.

Eurico Miranda não fazia o tipo de dirigente boleiro, mas sabia se relacionar com técnicos, jogadores e dirigentes. Ele era direto, por saber falar o que os jogadores queriam ouvir, um pouco de pagar premiações robustas em dinheiro vivo, ainda no vestiário, logo depois de cada vitória.

No período em que presidiu o Vasco, Eurico enquadrou jogadores polêmicos: Romário, Edmundo, Donizete Pantera, Beto, Marcelinho Carioca, Petkovic, Nenê, além de Rodrigo. O ex-zagueiro, inclusive, tinha grande admiração do dirigente pela entrega em campo nos clássicos contra o Flamengo.

Muito por sua personalidade forte, Eurico Miranda fazia questão de tratar o clássico entre Flamengo e Vasco como um “campeonato à parte.” Ele fechava treinos, proibia entrevistas e supervisionava diariamente os jogadores na concentração. Eurico, aliás, sempre concedia entrevistas em semanas de clássico contra o Flamengo. Nesse ínterim, concentrava às atenções nele e tirava os jogadores do foco da imprensa.

Valia tudo para derrotar o rival!

O legado

Eurico comandou o futebol do Vasco nos títulos Brasileiro (1989, 1997 e 2000), da Libertadores (1998), da Mercosul (2001), Rio-São Paulo (1999) e incontáveis Estaduais. Fã de charutos e cavalos, Eurico sempre foi reverenciado por funcionários e jogadores. Deixa o Vasco tendo como aliado muito de seu vitorioso legado para tentar se recuperar de uma situação ruim financeira, pela qual também é impossível retirar sua parcela de responsabilidade.

Descanse em paz!

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