Ex-goleiro faz revelações sobre Flamengo de 95

Não é todo jogador que tem a oportunidade de jogar no Flamengo. Menos ainda, no centenário do clube. Mas, Émerson Ferretti foi um dos selecionados para essa missão. Ainda progredindo na carreira, aos 23 anos, o goleiro chegou sem muito nome mas com muito entusiasmo. Hoje, aposentado, Emerson relembra como foi receber a proposta do rubro-negro carioca.  

“Quando recebi a proposta do Flamengo, encarei com uma grande responsabilidade. Primeiro, por toda tradição e visibilidade. Depois, por ser o ano do centenário do clube. De fato, naquele ano, os holofotes estavam todos voltados para a gente. Principalmente, por conta do elenco estrelado que foi montado. Além disso, ainda teve a volta de Romário, atual melhor jogador do mundo e tetracampeão. Sem dúvidas, tudo isso me seduziu bastante”, conta o ex-jogador.

Planejado com grande expectativa, Flamengo de 1995 fez muito torcedor sonhar. Com um ataque formado por Romário, Edmundo e Sávio, os rubro-negros esperavam ganhar tudo. Mas a realidade se apresentou diferente. Com muitos problemas extra-campo, o elenco teve dificuldades de suportar a pressão e alcançar os resultados desejados. Goleiro daquele time, Émerson Ferretti, revela o fator principal do insucesso no ano do centenário do clube.

“No futebol, o sucesso é feito de muitas variáveis. Lógico que ter um elenco com qualidade técnica indiscutível ajuda. Mas só isso não é garantia de sucesso. Por exemplo, a união é muito importante nessa sintonia e a gente nunca conseguiu ter. Logicamente que a vaidade no futebol já é alta, mas, naquele contexto foi ainda maior. Portanto, a falta de união foi um fator que influenciou muito nosso desempenho no campo”, confessa.

Bastidores, instabilidade, pressão, aquele Flamengo 95 não rendeu títulos, mas, gera revelações até os dias de hoje. Em entrevista, ao Esporte 24 Horas, Émerson Ferretti passa a limpo sua experiência naquele ano.

Ataque dos Sonhos

Romário em ação pelo Flamengo

Romário retornou ao Brasil para ser o maior astro do Flamengo em 1995 (Foto: Divulgação | Flamengo)

 

O trio de ataque formado por Romário, Sávio e Edmundo é uma das principais lembranças daquele Flamengo de 95. Porém, o que poderia ser a grande virtude se transformou no principal defeito. Com personalidades totalmente distintas, os jogadores tinham dificuldade de se entender dentro de campo e, principalmente, fora dele. De acordo com Émerson Ferretti, a liderança do Baixinho era predominante no grupo.

“No “ataque dos sonhos”, a maior liderança era de Romário. A gente tinha um Sávio, prata da casa, mas ainda muito jovem. Por ter personalidade mais tímida, acabava ficando mais a sombra dos outros. Edmundo, um coração imenso, mas muito polêmico e estava sempre metido nas confusões. Com isso, Romário e Edmundo chamavam mais a atenção”, afirma o ex-jogador. 

Além disso, a pressão da mídia em cima do rendimento dos atacantes minavam o ambiente e aumentavam a cobrança.

“Com toda a mídia em cima do trio, o relacionamento entre eles acabou sendo dificultado. A ponto de gerar uma briga entre Romário e Sávio. Estávamos em uma excursão no Japão, na época, os dois jogadores tiveram uma discussão forte durante o jogo. Foi bem complicado para contornar toda a situação. Mas pelo contexto de desunião que a gente vivia, isso acabou acontecendo”, revela Ferretti. 

Ego de Vanderlei Luxemburgo

Branco, Luxemburgo e Romário no Flamengo 1995

Vanderlei Luxemburgo durante as chegadas de Branco e Romário no Flamengo (Foto: Divulgação | Flamengo)

Assim como aquele grupo, Vanderlei Luxemburgo, treinador da época, tem seu ego reconhecido em todos os lugares por onde trabalhou. No Flamengo, não foi diferente. Com um grupo estrelado em mãos, o técnico tentou impor sua liderança. Mas diante de um Romário tão prestigiado internamente, Luxemburgo acabou falhando e minimando seu próprio trabalho.

“Luxemburgo tem um grande ego. Mas, ele colocava respeito e precisava de pulso para conduzir um grupo tão estrelado. Porém, acabou gerando algumas insatisfações. A maior delas foi com Romário. No final do Campeonato Carioca de 95, o treinador e o atacante tiveram um desentendimento e isso nos prejudicou. Quando duas peças fundamentais do clube entram em rota de colisão é bem complicado. Com certeza, isso nos atrapalhou bastante”, analisa o ex-goleiro. 

Pressão no Flamengo

Com um elenco fragmentado, Flamengo teve muitas dificuldades de atingir as expectativas do seu torcedor. Com isso, a pressão no clube foi aumentando gradativamente. Após sofrer o gol de barriga de Renato Gaúcho, na Final do Carioca, e começar mal no Brasileirão, o torcedor teve seu entusiasmo transformado em decepção. Segundo o ex-goleiro rubro-negro, a pressão na equipe foi muito forte e dificultou o trabalho.

“A pressão foi muito grande. No Carioca, a gente jogava na Gávea e a torcida estava presente todo dia. Isso tirava a tranquilidade do jogador. Quando você entra em campo e nem mesmo seu torcedor te apoia, fica muito complicado. Para reverter isso, precisa de um preparo emocional forte. Mas qualquer jogador que jogar no Flamengo tem que estar preparado para a pressão, talvez, seja uma das maiores do país”, afirma. 

Muita pressão, alta visibilidade e necessidade por títulos, toda essa cobrança também custou o trabalho de quatro treinadores no clube. Foram eles: Vanderlei Luxemburgo, Marcos Paquetá, Edinho e Washington Rodrigues. Sobre as mudanças no comando, Émerson Ferretti fez críticas a esse modelo de “troca-troca” do futebol brasileiro.

Washington Rodrigues comandou o 'Ataque dos Sonhos' formado por Sávio, Romário e Edmundo

O radialista Washington Rodrigues foi o quarto técnico do Flamengo em 1995 (Foto: Divulgação | Flamengo)

“A mudança de treinador não é bom para nenhum grupo. Perde manutenção e sequência de trabalho. Às vezes, uma troca é até solução. Mas toda hora não é o ideal e isso acabou acontecendo no Flamengo de 95.  Esse troca-troca não fez bem a nenhum deles. Pois não conseguiram desenvolver um trabalho, principalmente, diante da pressão por títulos naquela temporada. Isso também prejudicou muito”, critica o ex-jogador.

Rodízio no gol

Além de estar no centenário, em 95, o Flamengo precisou lidar com a ausência do ídolo Gilmar. Após três anos no clube, o goleiro deixou a Gávea e foi encerrar a carreira no Japão. Neste período, o Rubro-negro trouxe alguns goleiros para suprir sua ausência. Mas, diante da instabilidade do time, ninguém se firmou como titular. Foram quatro jogadores testados e nenhum correspondeu a altura. Sendo um dos personagens desse rodízio, Émerson Ferretti conta que a defesa rubro-negra era pouco protegida e isso prejudicava os goleiros.

“Naquele ano, todos sofreram pressão da torcida. Pois ainda estavam insatisfeitos com a saída do Gilmar. Além disso, tinha a questão técnica. O time tinha grandes jogadores, porém, a dificuldade de união em campo, de correr pelo outro, pesou. Estourava tudo lá trás. Logicamente, que quando não tem se muita proteção o goleiro fica mais exposto. Além disso, a gente ainda não tinha muito nome. Ficou fácil culpar os goleiros. A gente se enquadrou dentro de um contexto insatisfatório do elenco todo”, assume Ferretti. 

Prazer de jogar no Flamengo

Aposentado desde 2007, Émerson Ferretti, atualmente, atua como coordenador de pós-graduação em gestão esportiva. Durante o período afastado do futebol, o ex-goleiro atuou como comentarista esportivo, teve experiência na vida pública e foi presidente do Esporte Clube Ypiranga, da segunda divisão da Bahia. Mesmo que não tenha tido o mesmo sucesso com a camisa do Flamengo, o jogador revela muito carinho e orgulho da sua passagem pela equipe carioca.

“Para mim, jogar no Flamengo me traz muito orgulho. Ser lembrado até hoje, infelizmente, não por títulos. Mas por viver aquele momento histórico do clube. Tudo que vivi no clube me deu um amadurecimento muito grande na minha carreira. Eu fico muito feliz de ter vestido essa camisa. Acho que todo jogador sonha em jogar no Flamengo e isso para mim foi muito importante. Sem dúvidas, foi uma experiência muito enriquecedora para minha carreira”, conclui.

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